quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Carta ao Secretário de Estado do Ambiente e à CM Amadora

Vimos apelar a todos e todas que colaborem nesta campanha com dois pedidos fundamentais, ambos também em linha com a recomendação do Provedor de Justiça:
  • que o Governo assuma as suas responsabilidades em termos de protecção social e assegure o Direito à Habitação das famílias que foram despejadas no Bairro 6 de Maio na Amadora, articulando com o IHRU e Segurança Social alternativas para as pessoas.
  • que a Câmara municipal da Amadora suspenda as demolições no sentido de se encontrarem soluções em diálogo com o ministério e IHRU.
Ambas as reivindicações são básicas, vão no sentido do Estado assegurar aquilo que deveria ser a sua função, promover a vida e a dignidade humana e desenvolver uma política pública que responda às necessidades sociais. Pedimos que estes pedidos sejam enviados a partir do vosso email, de forma a pressionar o Governo, a Câmara e o IHRU a assumirem as suas responsabilidades. Os emails deve ser enviados cc/ das forças políticas que sustentam a actual maioria parlementar. Se quiserem escrever antes uma mensagem personalizada, força!

MINUTA

ASSUNTO: Bairro 6 de Maio | Suspensão dos despejos e resposta a emergência social


Exmos(as) Srs(as)
Ministro do Ambiente,
Secretário de Estado do Ambiente, José Mendes
gabinete.seaamb@mamb.gov.pt
Presidente da Câmara da Amadora
gab.presidencia@cm-amadora.pt


Cc:
helena.roseta@ps.parlamento.pt pev.correio@pev.parlamento.pt gp_pcp@pcp.parlamento.pt bloco.esquerda@be.parlamento.pt

Tendo tomado conhecimento que a Câmara Municipal da Amadora (CMA) tem levado a cabo demolições e despejos violentos no Bairro 6 de Maio, despejando famílias, crianças, idosas(os)  e pessoas doentes e sem que seja apresentada qualquer alternativa de alojamento.

Lembrando que o Provedor de Justiça fez, no final de Agosto, uma recomendação alertando para as violações de direitos humanos, assim como as violações do direito administrativo, cometidas pela CMA, assim como a revisão do Plano Especial de Realojamento de 1993, reconhecendo que este é um instrumento manifestamente desactualizado.

A decisão foi tomada na sequência da apresentação, em Julho de 2012 de queixa colectiva apresentada pela Habita, e de um pedido de averiguação dos factos pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos no que concerne aos despejos e demolições realizadas pela Câmara Municipal de Amadora, no Bairro de Santa Filomena, causando extremo sofrimento à pessoas envolvidas, grande parte delas ainda hoje sem alternativa habitacional decente.

Lembrando que decorre, durante o mês de Outubro, os 31 dias por um melhor Futuro Urbano, com vista a permitir a reflexão sobre o estado das cidades e do direito humano à moradia adequada, assim como lembrar ao mundo a sua responsabilidade colectiva sobre o habitat das gerações futuras.

Face ao exposto, e considerando que CMA demonstra assim um total desrespeito pelos mais elementares direitos humanos, alimentando uma situação de emergência social inaceitável, vimos por este meio:

  • solicitar ao Governo que assuma as suas responsabilidades em termos de protecção social e assegure o direito à habitação das famílias que foram despejadas no bairro 6 de Maio na Amadora, articulando com o IHRU e Segurança Social alternativas para as pessoas.
  • Exigir que a Câmara municipal da Amadora suspenda as demolições no sentido de se encontrarem soluções em diálogo com o Ministério do Ambiente e o IHRU.
Ambas as reivindicações são básicas, vão no sentido do Estado assegurar aquilo que deveria ser a sua função, promover a vida e a dignidade humana e desenvolver uma política pública que responda às necessidades sociais.

Apelando a uma actuação célere,

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Especulação não! Direito à habitação!

Lançamento em Portugal da campanha #ourcitiesnot4speculation promovida no âmbito da Aliança Europeia pelo Direito à Habitação e à Cidade.

dia 8 de Outubro
Sábado às 14:00 - 14:30
na Rua do Carmo

#EuropeNot4Sale, #OurCities #StopEvictions #StopDesahucios #StopDespejos

Por toda a Europa, as cidades estão a ser dilaceradas e refeitas segundo a visão das elites. Os bancos e a finança estão a lucrar tanto com prédios novos como com prédios velhos. Esta lógica de regeneração concentra o dinheiro em determinados territórios e expulsa pessoas desses territórios. O Estado promove a visão da habitação como um investimento, tendendo a pôr o nosso dinheiro onde estão a classes mais altas. Este modelo é insustentável, mas o sector financeiro ganha com ele, a curto prazo.

A nossa visão é de uma cidade diferente - não apenas a cidade antes do neoliberalismo, mas uma cidade que o derrote. Nós sabemos, por experiência, que comunidades empoderadas alimentam uma verdadeira democracia e cidades que sirvam as pessoas. Alguns e algumas de nós vimos dessas comunidades, e lutamos por elas, mas partilhamos a ideia de que habitantes com poder são um meio e fim na luta pelo direito à habitação e à cidade. Queremos construir alternativas concretas e, ao mesmo tempo, exigir ao Estado o empenhamento em habitação digna e acessível.

O empoderamento vem da acção, de sentir a nossa força colectiva. É desta forma que, durante o mês de Outubro que muitos grupos da Aliança Europeia pelo direito à habitação e à cidade irão promover acções contra a especulação. Esta especulação causa despejos, expulsões e nega às pessoas o seu direito a uma moradia decente e acessível. Defendemos estes direitos, impedimos despejos, e agora passaremos à ofensiva. Terão lugar acções em Espanha, França, Bélgica, Reino Unido, Itália, Chipre, República Checa. Hungria, Grécia, Portugal e eventualmente em mais países. Promoveremos também acções em solidariedade com lutas em todo o mundo, como parte do Mês de Acção pelo Direito à Habitação. À medida que aumentam os despejos e o tempo arrefece, a especulação financeira é responsável por mortes de milhares de pessoas por toda a Europa, de pessoas tentando chegar a Europa à procura e refúgio,

Sabemos o que queremos para as nossas cidades, e não é a especulação. Junta-te a nós e faz saber ao sector financeiro que não manda tanto quanto julga. Esta jornada de acção faz parte de uma mobilização global pelo direito à habitação, à cidade, à terra e ao habitat, porque estão em curso, por todo o mundo, processos muito fortes de privatização e exclusão de habitantes.

https://www.facebook.com/events/950776071716879/

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Câmara Municipal da AMADORA assinala o Dia Mundial do Habitat, promovendo demolições e despejos violentos

A Câmara Municipal da Amadora (CMA) retomou hoje, no dia Mundial do Habitat, as demolições e os despejos violentos no Bairro 6 de Maio, violando os mais elementares direitos humanos e ignorando as recomendações do Provedor de Justiça.
Durante a manhã de hoje foram despejadas quatro famílias, crianças e mulheres idosas   doentes. Nenhuma família foi notificada previamente e não tem qualquer alternativa de alojamento. A CMA demonstra assim um total desrespeito pelos mais elementares direitos humanos.
Lembramos que o Provedor de Justiça fez, no final de Agosto, uma recomendação alertando para as violações de direitos humanos, assim como as violações do direito administrativo, cometidas pela CMA. O Provedor de Justiça propôs ainda a revisão do Plano Especial de Realojamento de 1993, reconhecendo que este é um instrumento manifestamente desactualizado. A decisão foi tomada na sequência da apresentação, em Julho de 2012 de queixa colectiva apresentada pela Habita, e de um pedido de averiguação dos factos pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos no que concerne aos despejos e demolições realizadas pela Câmara Municipal de Amadora, no Bairro de Santa Filomena. 
Estes despejos ocorrem no dia mundial do HABITAT, que é celebrado anualmente na primeira segunda-feira de Outubro, em todo o mundo. Este dia foi designado oficialmente pela ONU e celebrado pela primeira vez em 1986, com vista a permitir a reflexão sobre o estado das cidades e do direito humano à moradia adequada, assim como lembrar ao mundo a sua responsabilidade colectiva sobre o habitat das gerações futuras.
Infelizmente estes despejos e demolições violentas vêm demonstrar que, num mundo onde há cada vez mais privatização e açambarcamento de terra, gentrificação e desregulação dos direitos das pessoas, o dia não é de celebração, é de protesto. Durante o mês de Outubro, em muitas cidades europeias vão haver acções de protesto, promovidas no âmbito da Aliança Europeia pelo Direito à Habitação e à Cidade.

Dia mundial do Habitat | As cidades não são para a especulação!

Hoje é o dia mundial do HABITAT, que é celebrado anualmente na primeira segunda-feira de Outubro, em todo o mundo. Este dia foi designado oficialmente pela ONU e celebrado pela primeira vez em 1986, com vista a permitir a reflexão sobre o estado das cidades e do direito humano à moradia adequada assim como lembrar ao mundo de sua responsabilidade colectiva sobre o habitat das gerações futuras.

Mas, num mundo onde há cada vez mais despejos, mais privatização e açambarcamento de terra, gentrificação e desregulação dos direitos das pessoas, o dia não é de celebração, é de protesto!

Durante o mês de Outubro, em muitas cidades europeias vão haver ações de protesto, promovidas no âmbito da Aliança Europeia pelo Direito à Habitação e à Cidade.


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Numa recomendação histórica, o Provedor de Justiça defende a revisão do PER

O Provedor de Justiça recomendou ao Governo, no final de Agosto, a revisão do Programa Especial de Realojamento (PER) de 1993, por ser considerado um instrumento "manifestamente desactualizado" e propôs um série de medidas que vão no sentido de dar uma resposta condigna às pessoas envolvidas.

Esta recomentação surge na sequência da apresentação, em Julho de 2012 de queixa colectiva apresentada pela Habita, e de um pedido de averiguação dos factos pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos no que concerne aos despejos e demolições realizadas pela Câmara Municipal de Amadora, no Bairro de Santa Filomena. De entre as medidas propostas na recomentação, disponível aqui, destacam-se as seguintes:
  • Proceder a novas formas de recenseamento que permitam encontrar soluções condignas para os moradores excluídos do recenseamento inicial, tendo especial atenção aos agregados compostos por crianças, idosos e cidadãos com deficiência;
  • A afetação dos terrenos indevidamente ocupados à execução de programas de realojamento; 
  • Privilegiar a implementação de programas complementares de apoio, promovendo a habitação a custos controlados para arrendamento ou venda, com aproveitamento de fogos devolutos e incentivando o recurso ao arrendamento apoiado em concelhos limítrofes realizado de forma coordenada.
Lamentamos o facto de ao longo dos últimos anos milhares de pessoas terem sido despejadas sem qualquer alternativa por vários municípios - com o município da Amadora à cabeça -, com  grande violência e atropelos aos direitos humanos. Por isso, a esta é uma recomendação histórica, que vai no sentido para pôr cobro de um programa hoje absoluto e de defender alteração da lei e das práticas assentes na salvaguarda do direito à habitação.

Esperamos que este documento provoque uma tomada de consciência junto da Câmara Municipal da Amadora, fazendo-a suspender o processo e procurando com o Governo soluções de realojamento adequadas às pessoas Esta realidade não afecta apenas o Bairro de Santa Filomena e o 6 de Maio mas muitos outros bairros ainda existentes.  

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Sobre as alterações à legislação do arrendamento urbano

Têm sido anunciadas algumas informações sobre alterações ao NRAU (Novo Regime de Arrendamento Urbano). A associação Habita vem manifestar algumas opiniões e propostas no âmbito da vasta experiência na defesa do direito à Habitação e à Cidade.
1 –Tem sido anunciado na comunicação social o congelamento das rendas durante mais cinco anos. Essa informação está totalmente desfasada da realidade. Na verdade as rendas  não estão congeladas desde o início dos anos 90. E apenas os contratos anteriores a 1990 estavam sujeitos a um arrendamento controlado com atualização anual.
Com a entrada do novo regime de arrendamento urbano em 2012, as rendas anteriores a 1990 foram sujeitas a novos aumentos, muitas para valores de mercado livre, sendo criado um regime de transição, com aumentos faseados, para pessoas com mais de 65 anos e rendimentos baixos, com incapacidade superior a 60%, ou com rendimentos médio-baixos, coletividades e empresas de baixa faturação. As rendas não estão por isso congeladas há muito.
2 – Saudamos o alargamento do período de transição para pessoas com mais de 65 anos e, simultaneamente com rendimentos baixos, ou com incapacidade superior a 60%. No entanto, preocupa-nos que os restantes casos previstos anteriormente na lei tenham ficado de fora deste prolongamento. Por exemplo, a situação das pessoas com menos de 65 anos e com rendimentos baixos já não estará  contemplada. Estas ficaram fora do novo período de transição. Consideramos que o Governo não poderá deixar estas famílias desprotegidas, devendo salvaguardar a protecção dos arrendatários que não têm forma de fazer face aos aumentos previsíveis para 2017.
3 – Saudamos que dois dos problemas principais da lei do arrendamento tenham sido igualmente levantados, mas aguardamos expectantes a resolução no que diz respeito:
a)  À extinção do Balcão Nacional do Arrendamento, cuja única função é a agilização do despejo retirando-o da alçada dos tribunais, principal garante dos direitos e garantias dos cidadãos. A única situação que nos parece aceitável e respeitadora de Estado de Direito é que os litígios e conflitos voltem aos tribunais e que seja extinto o BNA;
b) À revisão da possibilidade de despejo através da mera alegação, por parte do senhorio, da realização de obras profundas (nem sequer comprovada), principal mecanismo para os despejos e expulsão de população das nossas cidades no sentido da promoção dos projetos turísticos e/ou da reabilitação destinada a um sector de luxo, que procuram apenas alta rendibilidade, aniquilando qualquer direito à habitação e à cidade. Este mecanismo de expulsão e de profunda instabilidade no arrendamento não pode continuar.  É necessária a reintegração do inquilino.
4 - Perante os milhares de despejos provocados pela nova lei, é preciso, com urgência, apoio e alternativas de habitação adequada para quem se encontre em situação de carência económica. Não podemos continuar a assistir a milhares de despejos ou a situações de pessoas sem casa, sem nos perguntarmos o que acontece a estas famílias, qual o seu nível de desespero, se vivemos num Estado de Direito que respeita o direito à vida e os restante direitos fundamentais.
Sendo a habitação uma necessidade e um direito fundamental, o Estado tem e assumir o seu papel, assegurando formas de provisão verdadeiramente acessíveis à população e uma efetiva regulação do mercado. Temos muitas dúvidas que apenas a criação de regimes de incentivos, como seja um seguro de renda, sejam eficazes para fazer face à especulação, repercutida em aumentos na ordem dos 20 a 30% nas grandes cidades, completamente desadequados à realidade económica e social das famílias, então empurradas para uma crescente vulnerabilidade social.
A habitação social é residual no nosso país e estigmatizada, vista com preconceito até pelas instituições do Estado. No entanto, precisamos de mais habitação pública que satisfaça as necessidades sociais. Os subsídios de renda, reivindicação dos proprietários, serão uma forma de manter o arrendamento elevado e provocar grande rombo nas contas públicas, sem grande sustentabilidade. Assim, o gasto público deverá ser feito encontrando formas de manter as rendas a um nível aceitável, e a desenvolver outras formas de habitação para além do mercado. Por outro lado, é necessário o controlo da especulação imobiliária. Tememos que as chamadas "rendas acessíveis" não venham a ser acessíveis à maior parte da população que dela necessita. Simultaneamente, verifica-se a premência de um amplo processo de revisão à actual lei das rendas de forma a garantir o reequilíbrio de direitos entre proprietários e arrendatários.
É de extrema relevância o trabalho parlamentar desenvolvido no sentido de salvaguarda do direito à habitação. No entanto, tem de ser assumido o efeito nefasto da especulação no sector da habitação, garantindo, através na própria legislação, a regulação, e a protecção para todos, em particular face aos despejos aquando de situação de carência económica É necessário respeitar de forma efectiva os direitos e garantias fundamentais. Esse é o mandato e a responsabilidade do Estado.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Mas afinal o que se passa com a habitação em Lisboa e que propostas poderíamos defender?

O aumento do preço da habitação em Lisboa é, sem exagero, alarmante, e finalmente muita gente começa a falar sobre o assunto. Notícias como a subida abrupta no ranking das cidades mais caras do mundo devido ao preço do arrendamento, ou que em três anos o preço da habitação em Lisboa aumentou na ordem dos 22%, e a escassez de casas para arrendar são um problema sério. Tem-se falado do turismo e do alojamento local como as razões para o que está a acontecer. Mas reduzir o debate apenas a essas questões não nos leva muito longe. É preciso pensar, em primeiro lugar, como viemos aqui parar, onde estão as responsabilidades e, a partir daí, que respostas poderemos desenvolver. Este texto pretende ser um contributo.

A primeira causa para o que está a acontecer foi a liberalização do mercado de arrendamento, leia-se, o aumento das rendas antigas e a abertura de vias verdes para o despejo, através do anúncio de obras (sem necessidade de reintegrar o inquilino), precarização dos contratos e a criação dos balcão nacional do arrendamento (que só serve para despejos) retirando-o da alçada dos tribunais numa clara violação das garantias de protecção que os inquilinos têm de ter. Este processo desequilibrou drasticamente a balança para o lado dos proprietários. Esta foi uma medida querida da troika – alta representante do capital financeiro – escrita no memorando, que já antevia a nova área de negócio que aí vinha: reabilitação, arrendamento, mercado de luxo, turismo. É que o arrendamento com direitos dominava os centros das cidades e não podia continuar assim para os novos projectos que se anteviam, que necessitavam de despejar sem constrangimentos de maior.

É preciso que se desminta, desde já, mais um mito urbano: que o abandono da cidade e a degradação durante anos, se devia à anterior lei das rendas. Não, o abandono dos centros das nossas cidades deveu-se a um modelo, apoiado e subsidiado por uma política do Estado, compra de casa nova, crédito à habitação e expansão das cidades, que fez com que todo o investimento fosse direccionado para aí. Este modelo, como sabemos, esgotou-se, e os mesmos interesses, viraram-se agora para a reabilitação e para o mercado de luxo e das altas rentabilidades. É por isso que a maior parte dos edifícios que estão (e estiveram) vazios e degradados no centro da cidade são e eram de fundos de investimento imobiliário e promotores. Estavam apenas à espera do momento.

Portugal tem vindo a desenvolver nos últimos anos uma espécie de offshore imobiliário, quer seja os Vistos Gold, quer seja o estatuto de residência não habitual para estrangeiros, que lhes dá a possibilidade de não pagar IRS, em troca de cerca de 180 dias de permanência no país. O impacto destas medidas é elevado, uma vez que há milhares, sobretudo reformados, a fixar residência em Portugal de forma a deixar de pagar impostos. A compra de habitação e a sua rentabilização sobretudo no arrendamento temporário estão a fazer caminho. Os fundos de investimento imobiliário e outros, também continuam sua longa tradição de não pagar impostos1.

A promoção do alojamento local, através de um sistema fiscal bastante mais vantajoso do que o arrendamento, em que só se pagam impostos sobre 15% dos rendimentos, foi a cereja no topo do bolo. Mas o alojamento local não é todo o mesmo, há os pequenos proprietários que organizam este negócio com uma casa que têm, para compensar a perda de trabalho e de rendimentos que a austeridade trouxe, mas também os fundos de investimento imobiliário, que reabilitam e vendem para o segmento de luxo e gerem modalidades de arrendamento temporário de muitos apartamentos, e usufruem dos mesmos benefícios fiscais. Desta forma, o AL está a subtrair milhares de casas ao arrendamento.

A Autarquia abdica de todas as suas funções de regulação, equiparou o alojamento local a habitação e por isso o licenciamento é o mesmo. Manuel Salgado tratou de liberalizar também os planos de ordenamento, é tudo uma questão de mercado, segundo ele, a regulação só atrapalha. Entretanto, fez dezenas de planos de pormenor à medida exacta de proprietários e promotores, liberalizou o PDM, o Plano de Salvaguarda da Baixa, etc.

A CML anuncia, no entanto, uma reacção – Lisboa Para Todos – um rótulo eficaz, quiça o mote para a campanha eleitoral que se aproxima: este programa irá colocar através de uma espécie de parceria pública privada, cujos contornos não conhecemos na totalidade, entre 5 a 7.000 casas no mercado para arrendamento (menos de metade do que as que estão hoje no alojamento local). Estas casas com renda acessível (que ainda não sabemos o que é) será sorteada para famílias com rendimentos entre os 7500 e os 40.000 euros por ano. Podemos retirar daqui pelo menos duas conclusões: a primeira é que a autarquia, apesar de celebrar o que se passa na cidade, admite que o mercado de habitação se tornou inacessível à esmagadora maioria da população, pois se é necessário criar habitação acessível para famílias até aos 40.000 euros por ano, é admitir que cerca de 97% da população não encontra habitação acessível. Por outro lado, ao deixar de lado, aquelas que têm rendimentos anuais menores que 7500 euros, está a excluir uma grande faixa de população, pois que, de acordo com o ministério das finanças a percentagem que está abaixo disso é muito elevada. Mas significa também um preconceito, que afinal Lisboa não é para todos(e todas!). Este programa não será para muitas famílias precárias, do salário mínimo, ou abaixo disso, dos part-times, ou dos desempregados; significa que essas pessoas são para as listas de espera (e sem resposta) dos bairros sociais, o local dos pobres, ou inevitavelmente expulsas da cidade. Como o mercado está como está, a escassa política social redirecciona-se para a chamada 'classe média' e acaba de vez com qualquer política para os sectores mais empobrecidos da população que há muito esperam e desesperam.

Pode haver outras soluções, diversas, de âmbito mais estrutural, que não têm de passar pela discriminação dos pobres e por PPPs se o poder público assumir as suas funções.

Em primeiro lugar, alterar a lei do arrendamento urbano. Repor a garantia de protecção do inquilino perante o despejo e parar os despejos por obras.

É preciso acabar com o offshore imobiliário para estrangeiros, por um lado, e por outro, distinguir grandes de pequenos proprietários. São os grandes proprietários que têm a capacidade de mandar na cidade, movimentam interesses, mexem nos preços, não pagam impostos. Esta situação tem de ser invertida. Se os grandes proprietários começarem a ter tributação justa, na proporção dos ganhos que fazem, teremos mais recursos para uma política pública de habitação e maior capacidade de regulação.

Relativamente ao alojamento local, distinguindo grandes e pequenos pequenos proprietários, é necessário aproximar os sistemas fiscais do arrendamento permanente e do AL de forma a não se preferir o segundo por esse motivo. Assim como é fundamental a distinção entre o que é habitação e o que é AL, a sua monitorização e regulação, através de licenças, de forma a não desequilibrar a oferta de habitação na cidade. No momento actual uma moratória a mais AL e Hotéis era o mínimo para de alguma forma travar o processo e começar a criar outras medidas.

Criar mecanismos de controlo do arrendamento, como tectos máximos para o arrendamento e limites à subida quando há mudança do contrato são outras possibilidades. Muitas cidades assim o fizeram. Por exemplo, Nova Iorque, no seu tempo cosmopolita, de diversidade social e cultural que, exactamente pelo fim do controlo do arrendamento e da gentrificação, perdeu muito dessa riqueza e hoje deixou de ser a cidade interessante que foi.

Seria muito útil que Câmara e Estado central parassem o processo de alienação de habitação que desenvolveram nos últimos anos. A política de arrendamento público deve ser promovida, inclusivamente com a possibilidade de requisição de habitação vazia para integrar bolsas de arrendamento. Assim como a criação de mecanismos de garantia de percentagens de habitação acessível para arrendamento (para todos e todas a sério) nos planos de ordenamento de território, novas urbanizações e planos de regeneração urbana, de acordo com as necessidades reais (da mesma forma como se define os espaços verdes e os equipamentos, também a habitação social deveria estar estabelecida, sem ser confinada aos guetos.

Estas são apenas algumas propostas de reformas e regulação, que permitiriam um reequilíbrio perante a ditadura dos mercados, que nos retiraram o direito à cidade, não só de a habitar, mas também de nela participar verdadeiramente. É o mercado que hoje tem a passadeira vermelha estendida. Ter a passadeira estendida aos direitos, são outros 500.

Rita Silva


1Apesar de finalmente se ter acabado com a isenção de IMI e IMT dos FII. Estes encontraram o típico alçapão na lei, provavelmente feito à medida, para continuar a não pagar. Ver Artigo 9º, 1 e) do código IMI